Shogakukan divulga conclusões de investigação independente e anuncia reformas após escândalo de direitos humanos
A editora Shogakukan, uma das maiores do Japão e responsável por títulos como Detective Conan, Doraemon e Crayon Shin-chan, divulgou em 3 de agosto de 2026 um resumo das conclusões de um comitê de investigação independente sobre seu departamento editorial da revista digital Manga ONE. No dia seguinte, em 4 de agosto, a empresa apresentou uma lista de medidas preventivas. A publicação da versão completa do documento em inglês foi atualizada em 17 de agosto, tornando o caso acessível a um público internacional.
O comitê externo recebeu relatos de 44 incidentes, incluindo casos suspeitos de assédio sexual e outras formas de conduta inadequada. Os relatos abrangiam desde executivos seniores até funcionários que abusaram de suas posições e editores que agiram de forma inadequada em relação a criadores. Em alguns casos, a empresa agiu corretamente. Em outros, a resposta foi insuficiente.
O caso que desencadeou a investigação
O escândalo tem origem no caso de Shōichi Yamamoto, mangaká da série Daten Sakusen (publicada no Manga ONE). Em 20 de fevereiro de 2026, o Tribunal Distrital de Sapporo condenou Yamamoto a indenizar uma mulher em sua década de 20, que alegou ter sido abusada sexualmente repetidamente enquanto era estudante em uma escola de ensino médio à distância em Sapporo, onde Yamamoto atuava como professor. A mulher originalmente entrou com a ação civil em julho de 2022.
O tribunal ordenou que Yamamoto pagasse 11 milhões de ienes (cerca de US$ 71 mil) em danos. A vítima anunciou em março de 2026 que ela e seus advogados estavam recorrendo da decisão inicial, pois o tribunal não reconheceu a responsabilidade da escola no caso.
Além disso, em fevereiro de 2020, Yamamoto foi condenado criminalmente por violação da Lei de Proibição de Prostituição Infantil e Pornografia, tendo recebido uma multa de 300 mil ienes (cerca de US$ 1.900).
A contratação secreta sob pseudônimo
O caso ganhou novas dimensões quando se revelou que o Manga ONE iniciou em 2022 a serialização de Jōjin Kamen, de autoria de "Hajime Ichiro" e arte de Eri Tsuruyoshi. Posteriormente, ficou claro que "Hajime Ichiro" era o próprio Yamamoto usando pseudônimo. A Manga ONE anunciou em 27 de fevereiro de 2026 que suspenderia a distribuição digital de Jōjin Kamen e o envio de volumes físicos. Shogakukan admitiu que não deveria ter contratado "Hajime Ichiro" como autor original da obra.
O departamento editorial da Manga ONE explicou que o uso de pseudônimo foi escolhido "em consideração às vítimas para que não fossem revitimizadas". Porém, a empresa reconheceu que deveria ter dado maior atenção se essa decisão realmente beneficiava as vítimas.
A participação do editor nas negociações de acordo
Outro elemento grave: durante as negociações de acordo do caso civil que terminou em 20 de fevereiro, um editor de mangá participou das negociações, aconselhando as partes a contratarem advogados para preparar documentos notariais. Segundo veículos de imprensa, o editor sugeriu que os documentos notariais incluíssem uma condição de que a vítima não pudesse divulgar o assunto, e também propôs que Yamamoto pagasse 1,5 milhão de ienes (cerca de US$ 9.700) como acordo.
Conclusões do comitê
O relatório do comitê externo foi direto ao apontar que, no caso da vítima de Yamamoto, a empresa "encorajou e apoiou" a violação de seus direitos humanos. O documento também destacou que decisões editoriais foram priorizadas mesmo em casos em que havia suspeita de violações de direitos humanos, e que a coordenação entre os departamentos editorial, jurídico, administrativo e gerencial não funcionou de forma adequada.
Entre as deficiências identificadas:
- Shogakukan não tinha consciência suficiente da necessidade de analisar questões sob a perspectiva das vítimas
- Não havia reconhecimento adequado dos riscos de direitos humanos decorrentes das relações de poder entre editores e autores
- Não existiam sistemas adequados para decisões organizacionais sobre riscos materiais, incluindo riscos de direitos humanos
Medidas punitivas e reformas
Em resposta, os executivos da Shogakukan terão redução salarial por três meses: o presidente com corte de 50%, e os demais diretores, administradores e auditores com reduções de 20% a 30%.
A empresa também anunciou cinco medidas preventivas:
- Política de Direitos Humanos — elaborada em 19 de março, com a criação de um Comitê de Direitos Humanos liderado pela superintendente executiva sênior Kumiko Hanazuka, com participação de especialistas externos.
- Treinamento regular — programas sobre respeito aos direitos humanos, prevenção de assédio sexual e violência, apoio a vítimas e procedimentos de denúncia.
- Revisão de contratos — inclusão de cláusulas sobre direitos humanos em contratos com criadores externos e revisão de políticas com parceiros externos.
- Supervisão do Conselho — relatórios regulares ao Conselho de Administração sobre violações de direitos humanos, com investigação de casos similares em outras divisões.
- Mecanismo de reclamações — sistema compatível com os Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, permitindo que vítimas (mesmo sem contrato direto com a Shogakukan) apresentem reclamações.
Reação da indústria
Após as declarações iniciais da Manga ONE e da Shogakukan, muitos mangakás criticaram a empresa nas redes sociais e anunciaram que retirariam suas obras da plataforma Manga ONE. A cerimônia de premiação dos vencedores do 71º Prêmio de Mangá Shogakukan, que seria realizada em 3 de março, foi adiada. A empresa também suspendeu temporariamente a atualização de Seisō no Shinri-shi, outro mangá cujo autor original era o escritor de act-age, Tatsuya Matsuki, preso por ato indecente coercitivo contra uma estudante do ensino fundamental em 2020 — outro caso que envolvia o mesmo departamento editorial.