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Entrevista: Kazunori Ito conta como Patlabor criou episódios sem robô e por que o romance Sushi-ya no Gotō fecha a história de Patlabor 2

Miriam HoshinoPor Miriam Hoshino1h atrás5 min de leitura

Em entrevista publicada em 14 de agosto de 2026, o roteirista Kazunori Ito revelou os bastidores de Patlabor, explicou como a franquia se tornou um "animê de robôs que quase não mostra robôs" e contou que o romance Sushi-ya no Gotō, lançado em junho, foi a forma que encontrou de dar um desfecho a Patlabor 2: The Movie depois de mais de 30 anos.

Cena do File 2 de Patlabor EZY
Cena do File 2 de Patlabor EZY | Créditos: ©HEADGEAR/Comitê de Produção de Patlabor EZY

O retorno com EZY

Patlabor EZY é o primeiro animê novo da franquia desde o curta Patlabor REBOOT, de 2016. A trilogia tem direção de Yutaka Izubuchi e roteiro de Kazunori Ito, dois dos cinco criadores do coletivo HEADGEAR que fundou a série em 1988, ao lado de Masami Yuki, Akemi Takada e Mamoru Oshii.

O Capítulo 1 de EZY entrou no catálogo do U-NEXT com exclusividade nesta sexta-feira, 14 de agosto, mesmo dia em que o Capítulo 2 estreou nos cinemas japoneses, como o portal já havia noticiado.

Robôs que não aparecem: culpa do orçamento

Uma das marcas registradas de Patlabor é a existência de episódios inteiros em que os Labors, os robôs gigantes da série, simplesmente não aparecem. Ito explicou que a ideia nasceu de uma necessidade bem prosaica: dinheiro.

"É uma história muito simples. Não tínhamos orçamento para mover os mechas, então nasceu a obrigação de escrever histórias que funcionassem sem eles e ainda fossem interessantes", contou o roteirista. "No começo, os OVAs teriam um diretor diferente por episódio, mas o produtor disse que isso tornaria o orçamento impossível de administrar. Acabamos entregando tudo ao Oshii, que entende bem essas coisas e sabia exatamente em quais episódios dava para animar os robôs."

A limitação virou identidade. "A partir do planejamento, a decisão foi basear a série na vida cotidiana. Descobrimos que, na prática, dava para fazer quase qualquer coisa", disse Ito.

Os três pilares de Patlabor

O roteirista define a essência da franquia por três elementos: cotidiano, humor e ética. É esse tripé que diferencia a série de outros animês de mecha, segundo ele.

"É o conflito de quem quer ser um bom policial em um mundo em que não se sabe bem o que é certo. As personalidades são diferentes, mas quando tudo se encaixa, todos olham na mesma direção. Sem isso, aquele senso de 'lado dos heróis' da SV2 não existiria", explicou.

Ito foi além e classificou o popular arco de Griffon como uma exceção dentro da própria obra: "Não é a linha principal de Patlabor. É um grande fanservice do Yuki [Masami Yuki, criador do mangá]. Mas a franquia tem profundidade até para aceitar isso".

Sobre EZY, o roteirista garantiu que os três pilares foram preservados, com uma novidade técnica importante: agora os robôs são animados em CG, o que tirou os limites da época dos OVAs. "No episódio 3, eu mesmo achei que exagerei na quantidade de ação. No primeiro OVA, o clímax do episódio 1 era só uma fala e o som de um sino".

O romance que encerra Patlabor 2

Lançado em 25 de junho pela Bungeishunju, Sushi-ya no Gotō é o romance em que Ito apresenta o destino de Kiichi Gotō, o ex-comandante da SV2, que agora administra um pequeno restaurante de sushi em Atami. A ideia surgiu de um detalhe curioso do dia a dia.

"Eu estava na sala de reuniões da Genco, a produtora de Patlabor, e vi uma placa do lado de fora: 'Sushi-ya no Gotō'. Pensei que seria interessante se o Gotō, depois de se aposentar, virasse dono de um restaurante de sushi. Foi assim que tudo começou", relembrou.

O livro reuniu os antigos integrantes da SV2, incluindo Asuma Shinohara, Noa Izumi, Isao Ōta, Mikiyasu Shinshi, Hiromi Yamazaki e Kanuka Clancy, além de Shinobu Nagumo. Mas o plano original era outro: uma história intimista no estilo de Midnight Diner, com apenas Gotō e seus clientes habituais.

"Quando o Asuma apareceu no capítulo 2, a pressão dos fãs foi enorme. Percebi que precisaria trazer todo mundo de volta. E foi aí que surgiu a vontade de dar um desfecho a Patlabor 2", contou.

Ito admitiu que o final de Patlabor 2: The Movie, de 1993, o incomodava havia décadas: "O filme tem um acabamento impecável, e é por isso que todo mundo aceita o final. Mas, olhando para a franquia inteira, é uma obra isolada e bem particular. Quando vi os storyboards do Oshii, pensei: 'isso aqui é a tese de guerra dele'. Aquele final foi feito com a intenção de encerrar Patlabor, e eu tenho minha parcela de responsabilidade".

O gatilho final veio de uma postagem da dubladora Yoshiko Sakakibara, voz de Shinobu Nagumo, no blog pessoal: "Ela escreveu de forma muito racional sobre o que sentia a respeito daquele final. Ali decidi que era hora de resolver isso. É a minha bagunça de 30 anos sendo limpa".

Gotō, o "chefe ideal"

Apesar da fama de "chefe ideal" que Gotō ganhou entre os fãs ao longo dos anos, Ito discorda do rótulo: "Ele não é um chefe ideal, de jeito nenhum. Você nunca sabe o que ele mandaria você fazer se fosse subordinado dele. Se os estudantes que assistiam na época perceberem, agora adultos, que Gotō não era um chefe ideal, para mim já valeu".

O roteirista também revelou como o criador de Patlabor vê a si mesmo dentro do próprio elenco: "Se eu tentasse ser o Gotō, acabaria virando o Asuma. O Oshii me desmascarou há muito tempo: 'o Asuma é o Ito', ele dizia".

E quem seria o Gotō do HEADGEAR? "Se tivesse que escolher, seria o Oshii. No fim das contas, ele é um adulto. De vez em quando ele surta, mas é um adulto", brincou Ito.

O romance Sushi-ya no Gotō fez tanto sucesso que teve reimpressão anunciada antes mesmo do lançamento, uma semana após o início das pré-vendas.

Fontes